Filho de militar, nascido em Brasília, pai colorado e mãe flamenguista. Motivado a torcer pelo tricolor por um tio, o único gremista da família, oficializando minha paixão no dia 22 de março de 2006, quando enfim, me associei ao clube. Sou prova viva de que os deuses do futebol escrevem certo por linhas tortas, seja em campo ou fora dele.

Desde que me mudei para o Rio Grande do Sul, em 1997, até o ano de 2016, jamais havia presenciado um grande título dentro do estádio. Aquela Copa do Brasil preencheu esse vazio. Ainda faltava algo. Faltava apagar da memória aquela noite fria de inverno, típica de Libertadores, onde fomos ao Olímpico motivados por uma esperança quase platônica de que conseguiríamos virar o placar adverso trazido de Buenos Aires, quando, em poucos minutos, Riquelme e sua turma nos trouxeram à realidade. Enfim, não deu.

Dez anos se passaram e cá estávamos novamente: Final de Copa Libertadores. Como em todos os outros jogos da fase final dessa LA, cheguei na Arena às 14:00, demarquei nosso espaço no E2 e aguardei a gurizada. Churras, resenha e trago. Rumamos à batalha. Falta mal batida pelo Luan, jogada que segue. Cruzamento da intermediária direto pra área, aquela “parede” executada com perfeição pelo Jael, esperando o tempo certo de bola, e concluindo a jogada com um passe magistral de cabeça para a finalização de Cícero (e pode botar na conta do Renato, ambos vieram do banco). 1 x 0 tricolor!!! E mesmo com aquele pênalti sonegado quase no final do jogo, íamos confiantes para Buenos Aires.

Terminado o jogo, o Fabrício Milesi, um dos meus amigos/parceiros de jogos, de pronto, falou: iremos à Buenos Aires!!! Ainda me recuperando de uma cirurgia no joelho, o que tornava a missão um tanto perigosa, titubeei. Afinal, mesmo não sendo contra River ou Boca, era um argentino e em Buenos Aires, o clima seria tenso.

Acontece que desde a lesão até a cirurgia não perdi um jogo sequer. De muletas e curativos, estive lá, vivi intensamente o momento histórico. Não seria razoável eu não estar em La Fortaleza.

Enfim, estávamos a um jogo do título. Era hora de lembrar das lágrimas de 2007 e focar nas de 2017, esquecer o joelho operado e confirmar presença naquela empreitada que tinha tudo para ser histórica. Foi então que, minutos antes da “barca” partir, após ter negado a viagem por todas as vezes que o Fabrício insistiu durante a semana que antecedia a grande final, resolvi mandar a despretensiosa mensagem: “dae, meu? Na estrada? Se cuidem!!” Eis que vem a resposta: “Não!! Ainda não saímos. Quer ir? Não tenho mais o ingresso, mas temos um lugar no carro.” Como eu disse lá no início: “os deuses do futebol escrevem certo, por linhas tortas.” Era para eu ir. Enfiei umas camisetas, cuecas e itens de primeira necessidade na mochila, liguei para a esposa avisando e parti, rumo à Argentina, eu, o Fabrício, o Alejandro (o colombiano mais gremista que alguém pode conhecer – a história dele mereceria um outro texto) e o Zé.


Saímos de Porto Alegre em direção à Montevideo para pernoitar. Ao amanhecer, partimos para Colônia de Sacramento no intuito de pegar o Buquebus (onde, milagrosamente, conseguimos comprar o meu ingresso de um gremista que acabou indo sozinho por conta da desistência do amigo) e desembarcar direto em Buenos Aires. A ideia era evitar transitar na capital portenha com placas brasileiras, já imaginando o clima tenso que encontraríamos.

Chegamos em Buenos Aires na manhã do dia mais importante dos últimos 10 anos (para qualquer gremista) e fomos direto ao hotel fazer check-in. A partir daí a ficha começou a cair. Descemos do quarto, pegamos uma Quilmes no mercadinho e fomos ao encontro da massa tricolor, em Puerto Madero.

Chegando ao Porto, ponto de encontro da torcida gremista, me dei por conta de que, embora eu tivesse feito um puta esforço para estar ali, haviam outros 5 ou 6 mil gremistas que fizeram o mesmo ou mais. Sério, por um dia, Buenos Aires foi gremista. Estávamos em casa. Além de esgotarmos a bebida dos ambulantes, a pelada que rolou no canteiro central, com direito a “golo” de gremista no final do tempo “regulamentar”, nos proporcionou um êxtase prévio ao que iríamos experimentar posteriormente na batalha campal.

 

 

 

Mesmo cedo, por pressão da polícia local, fomos ao ônibus que nos conduziria ao estádio. E lá ficamos por 1 ou 2 horas sem prazo e sem álcool. A essas alturas a ansiedade já causava arritmia e falta de ar. Afinal, por mais que estivéssemos com um gol de vantagem, ainda tinham 90 minutos a serem jogados. E era aí que morava o perigo (e o medo).

Finalmente, o comboio partiu, escoltado pela Polícia Argentina, rumo à Lanús, até La Fortaleza. Tínhamos 3 horas para percorrer os 20 Km do trajeto. A viagem corria bem até a passagem pela ponte Pueyrredón, quando deixamos de transitar em grandes avenidas e passamos para ruas simples, por vezes dentro de bairros. A angústia aumentava na medida em que a velocidade do deslocamento ia diminuindo. Paramos em um grande largo, algo parecido com uma praça, e por lá ficamos longos 45-50 minutos. Ainda faltavam 10 Km para o destino.

Enfim, chegamos tarde nas ruas estreitas da pequena Lanús. Nosso ônibus parou há mais de 1km do portão de acesso. Transitamos receosos pelas ruas até chegar ao portão, e adentrar ao pré-histórico (pois receberia uma final de Libertadores, que para nós seria histórica) estádio.

Entramos em La Fortaleza, jogo iniciado, por precaução, em razão do joelho operado, não subo os degraus da arquibancada, quando de repente, escuto aquele compasso grave, ritmado e empolgante. Era a Geral. O estádio veio abaixo. Eram 5, 6, 7 mil ou até mais gremistas, cantando numa só voz, o clássico: Dá-lhe, dá-lhe, tricolor!!! Dá-lhe, dá-lhe, Tricolor!!! Dá-lhe, dá-lhe, tricolor!!! Eu sou borracho sim, senhor!!!!! Senhores, dificilmente alguém terá o privilégio de presenciar o que eu presenciei. Fora de casa, Buenos Aires, Final de Libertadores e a Banda da Geral entrando. O ápice da loucura e do gremismo.

 

Justamente por não me arriscar subir as arquibancadas, acabei por presenciar, além da entrada apoteótica da Geral, o primeiro gol, do Fernandinho, poucos metros à minha frente. Aquele foguete que nos permitiu escutar as redes estufando, e entre os segundos que separaram a arrancada e o gol, aquele silêncio fracionário, que acabou rompido pela explosão da nossa torcida. Lágrimas. Muitas lágrimas. Dessa vez eram de alegria. As lágrimas de 2007 faziam parte de um passado muito distante naquele momento, praticamente esquecidas. Quando então, minutos depois, veio o do Luan, aquela bucha inacreditável. Inacreditável porque até hoje não consegui entender como a zaga o deixou invadir a área naquela velocidade pachorrenta (risos). Na minha cabeça (e na dos 7 mil gremistas) nada mais nos tiraria o título. Nem mesmo a ausência do nosso “5”, que na verdade era nosso “10” (o Arthur foi eleito o melhor da partida jogando apenas um tempo), no segundo tempo. Tampouco aquele pênalti convertido pelos argentinos.

Só quem esteve lá, naquele dia, para explicar o ambiente que se formou. Nada, nem ninguém, tiraria daquela torcida o título que estava engasgado desde 2007. Nada, nem ninguém, ofuscaria o brilho daquela conquista. E assim, partimos rumo ao Obelisco.

Copamos o Obelisco. Isso!! A Goethe do River e Boca era nossa!! Éramos Tri da América e nada nos impediria de transbordar a alegria que de nós vertia.

A festa se estendeu madrugada adentro. Para alguns, terminou antes. Os que foram de avião. Para nós, que estávamos de carro, e teríamos que voltar o trajeto até Porto Alegre, foram dois dias de alegria.

Copamos o Obelisco, o uber, a Calle Floria, o Hotel, o Buquebus, o estádio do Peñarol, Punta del Leste (La mano de Dios), os freeshops do Chuí, o Hotel no Chuí, todos os postos de combustível em que paramos pelos 3 países que passamos…

…afinal, RECONQUISTAMOS A AMÉRICA!!!

Glauber Mello, integrante do Grêmio do Prata.

@glaubermello6

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