Quando o Grêmio era vencedor, era o Grêmio. Não era o presidente A, o vice-presidente B ou o técnico C. Quando o Grêmio ia sistematicamente mal, a própria torcida vaiava os jogadores como uma forma de repudiar a forma com que o time estava sendo (mal) montado.

Naquela época, vaiar os jogadores não significava “odiar”. Vaiar sem raiva ou, então, deixar de ir aos jogos não significava abandonar o time: era uma forma legítima e pacífica de PROTESTO. Protesto porque a gente investe tempo livre e até envolve as nossas famílias e o nosso trabalho com uma paixão que precisa nos corresponder à altura. Protesto porque a gente pode se reunir pra discutir como fazer de uma maneira diferente o que não se faz com método e com objetivo lá dentro. E, na pior das hipóteses, protesto porque a gente paga.

Eu tenho quase 38 anos. Vou ao Olímpico desde os seis. Tenho mais de 600 jogos em casa. Tive o privilégio de poder ter testemunhado todos os títulos relevantes e todos os maiores fracassos da nossa história de mais de 107 anos e meio. É muito fácil para os jovens dirigentes se protegerem sob o guarda-chuva do falso carisma populista de um político profissional que só procura voltar para o clube quando obtém votações sucessivamente reduzidas.

A mediocridade se expõe quando, ao invés de procurar A TODOS os grandes ex-dirigentes, opta-se tão-somente por seguir a um único deles.

Por que? Porque os outros, que possuem praticamente a mesma idade e já cometeram erros e acertos na mesma medida dentro do clube, estão defasados?!

Ora… Se é por isso, Odone também está: afinal de contas, ele só conquistou a Copa do Brasil de 1989.

Jamais poderia torcer contra o Grêmio. Jamais seria hipócrita, leviano ou oportunista a ponto de não deixar a quem recebeu a delegação legítima da maioria dos sócios poder exercer a gestão do clube.

Não questiono o caráter, a honestidade nem o gremismo de ninguém.

No entanto, em quase cinco meses de gestão, o profissionalismo prometido pela chapa “Renova, Tricolor!” ainda não foi visto:

– Os 50 milhões de um investidor publicados pelo Nando Gross não se viram; o adiantamento da péssima negociação com a Globo está sendo usado para pagar as dívidas e para desonerar o condomínio de credores, a fim de deixar o Olímpico livre para a OAS quando o Grêmio for para a Arena;

– As categorias de base do clube estão repletas de meninos de fora do RS sem identificação com o clube e com a nossa cultura. Eles não são e jamais serão gremistas. Os empresários mandam e o Grêmio obedece: eles só querem saber de dinheiro;

– O Conselho Deliberativo praticamente apenas delibera, sem que haja o necessário dissenso, atitude responsável por compor as melhores decisões dentro de uma verdadeira democracia;

– No momento em que deveria-se refletir sobre o passado para entender o presente e projetar o futuro com segurança, a nossa atual casta dirigente adquire uma perigosa mentalidade majoritária, na qual o futuro pelo futuro perde em referências.

“Quando não se sabe aonde se quer chegar, qualquer caminho serve.”

É claro que há tempo para mudar. Queremos que mude sempre para melhor. Todavia, o fato de nós não termos apoiado a nenhuma das duas chapas que se apresentaram para o Conselho de Administração reflete a nossa crença de que a política do clube apenas reflete o mais do mesmo: ou um modelo aristocrático e falido, ou um modelo neoliberal que privilegia consultorias, não segue à risca o Estatuto do clube como se fosse a nossa Constituição e não toma uma atitude de parlamento, isto é, de debate, de crítica.

Tratar bem, amar, zelar pela instituição significa apontar as falhas. O sinal amarelo aponta no horizonte. E ele é, infelizmente, uma característica comum a todas as gestões Odone. Exemplos:

– Em 1989, corríamos o sério risco de irmos para o chamado “Octogonal da Morte” no Gauchão. Com gols de Almir, vencemos o Glória de Vacaria e demos também uma arrancada para o título da Copa do Brasil;

– Em 2005, iniciamos o ano com o inexperiente técnico Hugo De León e com Mário Sérgio Pontes de Paiva como diretor remunerado de futebol. Em estado pré-falimentar, nos sujeitamos a aceitar DEZ jogadores do filho do ex-craque, que é agente de atletas. Vieram pérolas do naipe de um Marcell para completar o nosso grupo. Chegamos a estar na zona de rebaixamento à Série C do Brasileirão Somente depois, com Mano Menezes no comando, sem Mário Sérgio e com outros jogadores (diga-se de passagem, com o reforço essencial das categorias de base, com Lucas e Anderson como principais expoentes e um capitão experiente como Sandro Goiano), obtivemos o retorno à Série A mais difícil dentre todos os grandes clubes que passaram por essa soma de incompetência, jabá e estelionato entre a segunda metade da década de 1990 e todo o decorrer da primeira década do século XXI.

Quando existe um modelo de gestão, o reconhecimento de uma cultura técnica, física e tática, exemplos claros e altamente positivos de grandes clubes a serem seguidos e a obediência de um plano de governança corporativa que independa da ideologia A ou da facção B no poder, qualquer instituição ou empresa tende a recuperar-se rapidamente de baques anteriores. Melhor: minimiza a possibilidade de que passe novamente por um baque de proporções catastróficas.

Quando veremos novamente isso no Grêmio? Podemos não ser famosos, conhecidos ou ricos. Mas o Grêmio do Prata trabalha arduamente para aprender. E MUITO.

Hélio Paz – Núcleo de Comunicação
Movimento Grêmio do Prata
Cadastre-se para receber nossas atualizações

Não se preocupe, não enviaremos spam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *