Já estamos na quinta parte nessa série de homenagens ao Olímpico Monumental. Dessa vez, temos as memórias de César Fernandes.

Cada um terá sua maneira de se despedir: alguns não irão ao jogo, outros madrugarão nos arredores do estádio e há aqueles que, além de madrugar, dormirão no Velho Casarão.

Como é se despedir de um Amigo, que não tá de partida e nem vai viajar, que não tá doente e nem vai morrer, tá velho mas ainda está tão imponente, tão pulsante  e de tanta vida radiante, um Amigo tão vivo e eterno nas tuas lembranças de  criança, de adolescente e do homem atual, este homem que chora e se emociona por saber que a existência deste Amigo Olímpico entre nós, está com seus dias contatos.

Era janeiro de 1973, pela mão do padrinho Laere, o Velho Casarão me é apresentado, me encantei a primeira vista e ali no mesmo dia, no primeiro encontro, a minha primeira carteirinha de sócio do Grêmio, sela e registra o inicio de uma linda história de convivências, onde o brilho das cores azul, preto e branco nos acompanharam em tantas jornadas e emoções.

Um Amigo majestoso de tijolos e cimento se torna o rumo do teu caminho, teu ninho, é a casa do teu clube do coração, aonde a ti vou esperançoso ao teu encontro, na busca de alegrias, do prazer que é, estar ao lado de um Amigo.

O menino entra na escolinha em 1973, do “Carecão” se mira o Amigo, a bola e o sonho de jogar no seu clube te passa em sonhos dia e noite, dormindo e acordado, ídolos a ti encantam e se tornam referência é Ancheta, Everaldo, o louco Loivo e tantos mais. Os anos passam, e no tempo de moleque aonde mistura só jogo de bola e festa, vivi praticamente dentro do Velho Casarão, quando não era futebol era a piscina, verões ensolados e de muitas alegrias. Aí vem o primeiro grande título que comemoro com meu Amigo, ainda sem o anel de cima, o Olímpico fervia naquele Grenal em 25 Setembro de 1977, super lotação, fiquei atrás do gol aonde André Catimba fez o gol e deu a cambalhota, loucura, aquele time era maravilhoso, Têle Santana dirigia o gaguinho Eurico, um senhor zagueiro Oberdã, o voz fina Ladinho um meia direita que hoje não se faz mais, Tadeu Ricci jogava demais, formava o meio campo juntamente com Vitor Hugo o centro médio e Iura, jogando muito também. No ataque, na minha opinião uma das melhores formações Tarciso, André e Éder. Pronto, minha paixão transcende naquele dia, retomamos a hegemonia do estadual, num Grenal e com o nosso time sabendo rolar muito uma pelota.

Não só de alegrias convivi com meu Amigo, no ano seguinte 1978 ao subir para os infantis, após os primeiros treinos fui dispensado, choro e dor, um sonho se desfaz, mas um Amor aumenta mais. Prometi a mim mesmo. vou voltar.

Voltei tantas vezes que foram possíveis e impossíveis a reencontrar as emoções junto ao Majestoso Olímpico, voltei a vários jogos, a vários eventos, num amistoso até fui ver um tal Maradona que surgia, numa noite fria, gelada, mas num jogo quente, aonde quem brilhou foi um meia tricolor formado na base – Jorge Leandro.  

Inicia a época dos grandes títulos e sempre voltei para rever meu companheiro cada vez mais pulsante, cada vez mais imponente, cada vez mais empolgante, no primeiro brasileiro, na semi, o “Tiziu” – Paulo Izidoro jogou demais e Baltazar profere a máxima: “Deus esta guardando algo melhor para mim”. Sim Baltazar, para nós todos tricolores, “Ele” guardou todas as melhores emoções que um torcedor possa querer e viver no seu estádio, no seu Casarão, no seu Querido Amigo.

A César o que é de César, e não é que Renato faz a jogada, manda na área e aparece meu tocaio e de cabeça fuzila a rede do Peñarol, bahhh que festa, que loucura, um Olímpico pulsa, De Leon ergue a taça e massa grita: “Grêmio, Grêmio nós somos campeões da América”. A festa varre a madrugada e o office boy vai direto pro serviço com a faixa na cabeça, que tamanha felicidade.

Na chegada dos campeões mundiais, desde o encontro com o carro de bombeiros na avenida João Pessoa ao pátio e campo do Olímpico a multidão azul não continha tamanha alegria e entusiasmo, a cidade enlouqueceu, o estádio sorria e de braços abertos berrava: “A terra é Azul”.

Da campanha do bi da América em todos os jogos o caldeirão do Olímpico era como sempre o décimo segundo jogador, o time copero e vibrante que era respeitado e temido, o grito incessante da torcida deixava os adversários arrepiados, para não dizer se borrando perna baixo. Valeu esta união, um time aguerrido, forte e bravo se juntou aos cânticos de uma torcida inflamada e mais toda a mística que ecoa das paredes do estádio Olímpico Monumental.

Eu voltei em 1996, agora como preparador físico da categoria 82, passei a ser funcionário do Velho Casarão, conheci meu Amigo mais intimamente, fui a cantos, a pedaços, a vários lugares escondidos que ele abriga, aonde são guardados o segredo de seres Monumental.

Foram dois anos indo todos os dias ao teu encontro e, me sentido da familia, fui criando mais raízes e me apaixonando ainda mais, tenho certeza companheiro que te defenderia até a morte se estive no conselho na votação que te entregaram por um valor injusto, não te deram a real importância por tudo que fizestes a inúmeras gerações de gremistas, por todo carinho aos desconfortados que, indo até ti, se acalentavam e se curavam pelos gritos de gols e pelas glórias do Grêmio, que em teu gramado foram conquistadas.   

Para aumentar meu misero salário, trabalhava em dias de jogos do Grêmio, estive em todos portões do Olímpico, em todas passagens de setores e um dia até na bilheteria me colocaram. Na final do brasileiro de 96 eu estava na passagem da cadeira lateral para cadeira central, do lado da Carlos Barbosa, cheguei cedo, peguei o jaleco de trabalho e meu fui pra lá, a ordem era, só passa ambulante (pipoqueiro, cafezinho, água/refri, etc), o sol me cozinhou os miolos, pedi um boné emprestado para o vendedor de amendoin, lá pelos 40 minutos abandonei o posto, passava todo mundo pelo portão, e daí, eu só queria gritar e pedir aos céus e ao meu padrinho que me fez este louco pelo Grêmio, que o segundo gol viesse de qualquer jeito, e veio, atirei o boné do amendoin lá em baixo na geral rasguei o jaleco e comemorei emocionado o bi brasileiro, claro que, a grana que recebi não cobriu todas as cervejas da comemoração.    

Ficaria uma eternidade a falar de um Amigo que caminhou ao meu lado uma vida, faltariam linhas, esqueceria fatos e pessoas, mas antes de encerrar minha singela homenagem, falarei de uma das maiores emoções já vividas, levei meu filho ao seu primeiro jogo, realizava ali um sonho que eu tinha alimentado tanto tempo, ao entrarmos de maõs dadas e avistarmos o campo e a geral cantando, não controlei a emoção, chorei muito, fomos para a social, ele sentou e eu fiquei de pé atrás dele, ao vê-lo admirando o campo, pulando e gritando os cânticos daquela louca torcida, mais emoção, e as lágrimas insistindo correr ao rosto, eram de felicidade, o piá conheceu o Olímpico, o guri se encantou e seu gremismo, que já corria em seu sangue, se engrandeceu ainda mais e seguirá por gerações de nossa família, com seu testenho na vivência de ter conhecido um Majestoso e Monumental Olímpico, junto com seu velho pai.

Me despeço de ti querido Monumental, sabedor que és, que de um tempo pra cá adotei, certamente com tua licença, um pedaço de ti, é o meu Pilar, ali na social aonde assisto os jogos, juntamente a amigos maravilhosos. Todos os jogos ao chegar, me abraço ao Pilar e lhe dou um beijo, um carinho que significa Amor, significa respeito e gratidão por este gremista de Concreto que me fez e fará sempre um homem agradecido por ter te conhecido. No futuro ao passar por ti não estarás ali fisicamente, mas tenho certeza que irei te enchergar no meu coração, e nas noites, ao olhar pro céu, o letreiro azul brilhará e te fará sempre vivo em nossas lembranças. Obrigado e um abração meu Amigo Olímpico Monumental, aquele grande Amigo que tu jamais pensa em perder, porque ele só te fez ganhar.

César Augusto Fernandes

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3 respostas a “5/7: “Um amigo de concreto, por toda uma vida Monumental””

  • Bah César, me ganhou os trocos, que relato bárbaro.
    Nasci em 1973 e me identifiquei muito com teu relato, quando a gente recebe o Grêmio ainda guri ali já sabemos que nunca mais vamos nos distanciar das cores, do estádio, dos jogadores e da história do Tricolor.
    Recebi o Grêmio do meu pai, obrigado pai, lembro da 1ª camiseta, número 8 as costas, número do Paulo Isidoro e depois do Osvaldo. Lembro do 1º calção do Grêmio, morava em São Luiz Gonzaga, meu velho veio a POA e me levou um calção da escolinha do Grêmio, aquele calção passou a ser meu fardamento nas peladas dos campos de chão batido, jogava de pés descalço e sem camiseta, perdia a “tampa” dos dedos, quebrava uma unha, mas nunca me entreguei, com aquele calção eu me achava Hugo De Leon…
    Bueno César, show de bola teu relato, EU SOU DO GRÊMIO SENHOR, GRAÇAS A DEUS!!!!!!!
    Domingo vamos assar uma carne baguala e tomar um trago forte, entramos em campo com os “dentes de leite”, com os mirins e não perdemos esse jogo, LUTAREMOS QUE GANHAMOS!!!!!!
    Saludos Tricolor!!!!!!!!!!!!!

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