Uma das grandes dificuldades na República Rio-Grandense sempre foi a falta de uma cidade com saída para o mar, um porto. Nunca é demais salientar que essa necessidade era vital para o fornecimento de mantimentos e de armamentos para os Republicanos.

Por isso a Tomada de Rio Pardo, em 30/04/1838, foi tão importante.

Luis Nascimbene¹ registra muito bem em seu livro, “Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul” de 1860, que tanto o plano quanto a execução do mesmo foram brilhantes.

Tudo começou com uma reunião de todas as principais forças Farroupilhas, algo nunca antes visto nesta guerra. Reuniram-se, na margem direita do alto Jacuí, três mil rio-grandenses dispostos a conquistar Rio Pardo.

Nascimbene escreve: Nunca, até então, os Republicanos tinham-se visto reunidos em tão grande número, nunca ainda as brigadas das remotas fronteiras ocidentais do Uruguai tinham lutado junto com às suas confrades das beiras orientais do Rio São Gonçalo, aqui pela primeira vez deram-se felizes o fraterno abraço e narraram orgulhosos as próprias façanhas, e com narrações o entusiasmo Nacional ergueu-se. Na verdade, grandioso e comovente aspecto, além das narrações, apresentava aquela união de heróis, todos orgulhosos de lutar para libertar o solo da própria Pátria

Rejubila-te, Rio Grande do Sul, que em tua defesa tens heróis assim brilhantes! Não creia leitor, que nesta reunião se fizesse ostentação de esplêndidos uniformes, de finos estribos, ou que se adornassem de metais preciosos, nem comida especial estavam consumindo, não tinham nada que pudesse fascinar o ávido olhar do pomposo dominador, eram todos agasalhos com simples ponchos, mas com aspectos endurecidos pelas intempéries, pelas fadigas, cada um, ao invés, mostrava orgulhosamente as suas bem lúcidas armas, demonstrando que eram de fibra resistente as primeiras, e infalíveis as outras, cada um orgulhava-se de conduzir como reserva (a cabresto) um potro escolhido e domesticado por ele mesmo e louvava a sua vivacidade, usando-o somente no dia da batalha, e fazia questão de levar uma boa reserva de milho para o seu cavalo, enquanto para ele era suficiente um pedaço de carne assada e isto valia em geral para todos, para os chefes, para os soldados, acampando juntos sem distinção, a única distinção aqui era o valor, e quem mais era valente, mais era reverenciado.²

Mapa Rio Pardo

E lá foram os Farrapos. Atravessaram a nado o Rio Jacuí, ao sul da cidade de Cachoeira, e, deixando a cidade de Cruz Alta à esquerda, embrenharam-se na mata fechada, sendo algumas vezes necessário abrir caminho na base de machadadas para que tal contingente pudesse transpor passagem. Atravessaram precipícios, pântanos, matagais, serpentearam o Passo do Couto e, na noite que precedia o 30/04/1838, estavam às portas do Rincão.

Ao chegarem em frente ao Rincão ocupado pelo inimigo, o bramido foi geral e tão forte que os imperiais ouviram e se resguardaram em seus abrigos.

Mal raiou o dia 30/04 e o exército Republicano investia fortemente contra as defesas brasileiras. E, da mesma forma que infantaria e cavalaria forçavam passagem contra as barreiras terrestres, os lanchões de guerra bombardeavam a cidade pelo rio Jacuí.

Assim aqueles audaciosos e irados Republicanos lançaram-se contra aquelas bocas de fogo, assaltaram as baterias, carregaram sobre os artilheiros, penetraram no acampamento. As artilharias são tomadas, a cavalaria fraca demais foge, os corpos de infantaria tentam resistir, mas o General Netto avança e todos os grupos entram em combate, circundam o inimigo por todos os lados, e este agredido por tanto ímpeto, e atacado de todas as partes não mais resiste, abaixa as bandeiras, depõe as armas e toda aquela hoste se entrega, prisioneira.²

Foi assim, com muita garra e organização, que recuperamos mais uma cidade dos jugos do Império. Uma cidade de grande valia para ambos os exércitos.

Um detalhe que será abordado em breve foi a prisão do Maestro Joaquim José de Mendanha que, dias depois, teria seu nome escrito para sempre na história Rio-Grandense.

 Gabriel Tessis
@bagual35 
Patrão do Piquete Grêmio do Prata

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1 – Luis Nascimbene, doutor em Filosofia e Matemática, Engenheiro Hidráulico, foi um escritor italiano que veio a República Rio-Grandense durante o período de guerra e que em 1860 publicou o livro: Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul.

2 – Transcrito do livro: Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul – Luis Nascimbene – 1860/reeditado 2009

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