Respeitem Renato Portaluppi

Respeitem Renato Portaluppi! O que falta para que grande parte dos admiradores do futebol se renda e reconheça a imensa capacidade de Renato Portaluppi? Por que alguém que ostenta um histórico de tantas conquistas e uma biografia tão vitoriosa ainda é alvo de tanta desconfiança e críticas insistentes e repetitivas?

Renato não é daquele tipo de pessoa que passa despercebido. Não é e nunca foi o profissional da resposta pronta, do discurso politicamente correto, da falsa modéstia e do desvio de assunto.

Renato sempre apresentou o seu perfil fanfarrão, de bom malandro, marrento, no velho estilo “boleiro das antigas”.
Seguro de suas virtudes não pestaneja em enaltecer sua qualidade, especialmente em relação ao seu passado como jogador. Na sua opinião foi um dos melhores do mundo e se o mundo não concorda com isso, dane-se o mundo, a opinião é dele e ele a exterioriza.

Para muitos é prepotência para tantos outros é folclorismo, mas esse sempre foi o seu jeito de se portar e uma de suas marcas.

Este perfil de boleiro o acompanha na sua carreira fora das quatro linhas. O Renato que senta na casa mata, mais maduro, mais ciente de suas responsabilidades e de seu papel, segue mantendo esses adjetivos do velho boleiro.
Isto pode ser a causa de grande desconfiança sobre o seu trabalho. Renato ainda não apresentava um grande título como treinador, mas já lhe sobrava autoconfiança.

Chegou para sua terceira passagem ao Grêmio, clube que sempre jurou amor e do qual é o maior atleta da história, responsável direto pelos maiores feitos do tricolor gaúcho. A chegada foi sob enorme desconfiança, mas amparada em muito apoio de uma torcida que valoriza e respeita seus ídolos.

Pouco mais de dois meses depois de sua chegada: a taça da Copa do Brasil. Ele, Renato, conduz o Grêmio à um título nacional que põe fim a um longo jejum de conquistas de um clube acostumado com as vitórias. Que roteiro sensacional, que trama alucinante. Não poderia outro ser o treinador a levar aquele grupo a esta conquista!

É a hora dos críticos reconhecerem a sua capacidade, de enaltecerem os seus grandes méritos, mas não foi o que aconteceu. Sobraram vozes embebidas de conservadorismo e de falsos modernismos futebolísticos a reduzir o seu feito. Creditaram os maiores méritos à Roger, treinador anterior. Atribuíram a Renato o rótulo de mero “motivador”. O próprio Renato enalteceu os enormes méritos de Roger, mas sua modéstia não é lembrada na proporção de sua autoafirmação.

Renato aproveitou os méritos e a montagem do time, mas corrigiu defeitos históricos da defesa, apostou em jogadores que estavam escanteados no grupo, achou soluções criativas para os problemas que se apresentaram com a saída de jogadores e sagrou-se campeão sobrando em campo, ganhando dois jogos no Mineirão, local em que Grêmio historicamente colecionava derrotas.

Mas então se inicia 2017, os conhecedores de plantão sentenciavam que os dias de Renato estavam contados, que ele deveria ter deixado o clube, pois não conseguiria manter aquela motivação. A eliminação na semi-final do campeonato estadual causou euforia nos críticos, era a “prova” de que Renato não conseguiria montar um grupo, suprir as ausências causadas pelas lesões de jogadores importantes, ainda mais contratando veteranos renegados.
Mas 2017 chegou ao fim e Renato entrava para história como o único ser humano brasileiro a conquistar a maior competição da América como jogador e treinador e quis o destino, como demonstração de justiça, que fosse pelo mesmo clube: o Grêmio!

Pronto. Estava aqui a consagração. A estátua outrora pedida agora era exigida, chegou para o verdadeiro coroamento do maior ídolo da história do clube.

Grande parte dos críticos baixaram a guarda e começaram a reconhecer os enormes méritos de Renato. Mas outros tantos seguiam insistindo na desconfiança desarrazoada: “foi a libertadores mais fácil da história”, “não pegou nenhum campeão sul americano”, “teve sorte”, dentre tantos outros absurdos que nem merecem comentário.
Obviamente que nestes momentos de conquistas os críticos se encolhem, mas sempre lá estão, à espera de um deslize, de uma escalação mal feita, de um resultado negativo para destilarem todo o seu arsenal de críticas ensimesmadas, um roteiro pré-estabelecido e pronto das mesmas críticas de sempre, daqueles que insistem em não enxergar o evidente e, já, incontestável.

A derrota para o grande Real Madrid tentou ser elevada ao “status” de fiasco e representou um enorme alívio para os críticos que não aguentariam ter de ver e ouvir Renato campeão do mundo como atleta e treinador.

2018 iniciou e recém-saído de uma pré-temporada o clube já ergue mais uma taça, conquistando a Recopa Sul Americana em cima do Independiente da Argentina. Um grupo vencedor, encabeçado por um profissional daqueles que nasceu para vencer, com a sina de ser e fazer feliz o clube do Grêmio.

Mas os críticos lá estavam, a denunciar a inoperância ofensiva do time, a enaltecer as dificuldades de fazer gol, a ignorar o amplo domínio e a exaltar os lances de perigo de um adversário que entrou disposto a não jogar e foi extremamente competente no seu propósito de neutralizar o time do Grêmio.

Tentam eles diminuir o tamanho da conquista por ter sido nos pênaltis. Certamente poderia ter sido diferente levando em conta a superioridade numérica de atletas nos dois jogos, decorrência de justas expulsões dos jogadores adversários. Mas não se tira o brilho de uma conquista por ter vindo nos últimos instantes, no último estágio de desempate, no último pênalti a ser batido.

Logo os pênaltis que tanta tristeza já nos causaram, responsável pela grande dor da década de 90, aquele detalhe que nos pôs em quase igualdade com um gigante da europeu e que fez com que uma marca de alvejante batesse recorde de vendas no Estado do Rio Grande do Sul…coisas do futebol. Aqueles que reduzem a conquista nos pênaltis, não reduzem a derrota quando vem da mesma forma, sendo apenas mais um exemplo de tantas contradições.

Enfim, é chegado o momento de aceitar. No fundo, muito da resistência em torno de Renato é creditada a uma dose de inveja: como aceitar que alguém que diz que não quer trabalhar o tempo todo, que quer curtir a vida no melhor estilo malandro galanteador, que diz que não quer estudar, que foi melhor que o Cristiano Ronaldo, que merece uma estátua seja, ainda, um excelente treinador de futebol?

Isto é dom e dom não se explica. A capacidade de mobilização de grupo, de leitura de jogo, de conhecimento de futebol de Renato rompe com a filosofia daqueles que querem o falso modernismo, amparados em tecnicismos científicos que não resistem a uma curva inesperada obrada pela genialidade.

Renato está sendo endeusado, colocado em um pedestal, dizem eles. E a resposta é: ele se colocou lá. Exagero? Quem sabe, mas a maioria dos clubes de futebol do país ostenta ídolos com feitos muito menores, então, dispam-se da inveja e, gostando ou não, respeitem Renato Portaluppi, vencedor, gênio e sem diminuir tantos outros: o maior gremista da história mais que centenária do clube!

Daniel Kessler de Oliveira – Gremista